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O cientista alemão Johannes Kepler (1571-1630) é tido por muitos como um dos principais nomes aos quais Newton deveria prestar reverência por seu êxito com a Mecânica Clássica. Outros afirmar que Tycho Brahe, o mais rico dos estudiosos do céu de sua época, tinha inveja de sua capacidade de compreender o universo. Há quem diga que a fama de Galileu obscurece os feitos maiores de Kepler.

Um dos primeiros defensores públicos do sistema copernicano, que tinha o Sol como centro do Universo, ao invés da concepção mais aceita pela Igreja Católica, que rezava (literalmente) pela fé no sistema geocêntrico de Ptolomeu, Kepler é mais conhecido pelas referências em algumas aulas de física do segundo grau, que depois serão, obviamente, esquecidas.

A justiça a Kepler

Mas Kepler é um pouco mais do que isso. Talvez a principal palavra para descrevê-lo deva ser pioneirismo. Entre outras conquistas, o cientista alemão foi o primeiro a determinar as órbitas celestes como elípticas pela influência do Sol, que distorce o trajeto antes tido como circular. Trata-se do marco inicial da astronomia como ciência já que foi a primeira explicação convincente sobre o movimento dos planetas.

Pois Kepler agora é também o nome de uma missão espacial da Agência de Administração Espacial e Aeronáutica norte-americana, mais conhecida como NASA. O objetivo: desvendar planetas com propriedades similares às da Terra. Simples assim, o velho desejo de estabelecer identidades com seres e mundos cosmo afora. Desta vez, Kepler não foi o primeiro. Outros cientistas já receberam a menção honrosa em missões anteriores como Galileu.

O lançamento está previsto para acontecer às 00h49 deste sábado (07/03), no horário de Brasília, na Base de Cabo Canaveral, nos Estados Unidos. Durante três anos e meio, a missão Kepler, que consiste em um foguete de lançamento, o Delta II, e em um observatório poderoso para observar o espaço sem obstruções. Sob essas condições, a NASA argumenta que a missão poderá detectar muito mais do que os mais eficientes “olhos” da Terra, como no caso do Hubble. 

A procura por exoplanetas, astros que orbitem fora do Sistema Solar, não é nova. Atualmente, mais de 320 planetas fora do alcance do Sol já foram catalogados. Porém a principal virtude da missão que agora se apresenta é a de fazer uma verificação da frequência em que planetas com características similares às da Terra aparecem no cosmo. Uma distância adequada de uma estrela-mãe, composição rochosa e tamanho comparável ao do Planeta Azul são indícios procurados pelos profssionais da NASA. Quando um desses corpos passar entre as lentes do observatório e uma estrela qualquer, os sensores do Kepler poderão documentar os dados.

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Experimentos sem controle?

A ciência astronômica não é experimental. Não é possível reproduzir as condições de laboratório para testar as hipóteses em astronomia. Tudo o que se descobre é por meio de muita reflexão acerca de dados coletados. Galileu, Brahe, Copérnico e o próprio Kepler são exemplos mais comuns desta postura. Assim como no caso da economia, não é possível fazer um experimento com todo o mundo para verificar a viabilidade das ideias levantadas.

Funciona mais ou menos do mesmo jeito com as missões das agências espaciais. Na verdade, elas são tentativas de se aproximar mais daquele ideal de pesquisa de laboratório. Uma grande empreitada, no caso, um observatório com alta capacidade de detecção (os sensores do telescópio a bordo possuem capacidade de resolução total de 95 megapixels) que varrerá o entorno de 100 mil estrelas similares ao Sol localizadas entre as regiões de Cisne e Lira, na Via Láctea, para coletar indícios de planetas que orbitem entre o aparelho e uma gigante luminosa de gás.

Agora, com o universo como laboratório, os cientistas da NASA buscam, novamente, retirar o foco da Terra e tentar descobrir novos mundos, ainda que sempre à semelhança deste primeiro. Não o fariam sem conhecer as leis de Kepler. Tampouco foram os primeiros a deslocar a visão das pessoas das paisagens do Planeta Azul. Nada mais justa, portanto, a homegagem, já que Kepler, por duas vezes e muitas mais no futuro continuará a ser o primeiro a ter utilizado o céu como seu laboratório, sem condições perfeitas, porém sem limites para pesquisa.

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